10.1.09

A doenca e a sua metáfora


Por dias e noites,olhei na minha dor com olhos de morte. Sucumbi, chorei com esta triste surpresa .Dor progressiva rasgando meu peito, meu cérebro, minha vida. Fiquei calado, sentindo o fardo, lambendo a ferida. Na dor, perdi até a minha própria poesia. Uma infecção em mim mesmo. Ela está ainda aqui lutando com os meus ossos,mordendo minha paz, mas a luta não está mais desigual. Brigo com ela através do meu sangue. Brigo, discuto, bato nela e pela janela, observo que o mundo continua o mesmo. Apenas eu parei neste meu terremoto particular, apenas eu fiquei cara a cara com o furacão.
Fiquei pensando nesta minha vulnerabilidade diante da dor e da doença. Fiquei questionando o que esta experiência quer dizer-me. Sei que a doença pode ser uma ocasião de despertar e, sinceramente, creio que a minha está gritando:”pára, olha para ti mesmo”.
Sei que esta minha doença é a minha metáfora. É um momento para eu me afastar do mundo e mergulhar nos braços dos que me respeitam. Sei também que esta dor revela o quanto preciso das pessoas, o quanto ter alguém do meu lado seria importante. Não sou uma ilha, da mesma forma que dependo das pessoas, o meu trabalho também depende de mim. Faço falta de alguma forma.
Há uma objetividade nesta doença, um sentido que estou procurando dar. Tenho pensado no passado, reavaliado atitudes e esquecido o futuro. Estou permitindo que ele siga sem a minha presença constante. Tenho sentido a necessidade de saborear a alegria que o meu corpo proporciona e,sobretudo, tenho refletido sobre a doença e a libertação que ela pode trazer, ainda que seja na restrição.
Agora, resta-me a mim a espera e o tempo para que a cura chegue e, finalmente, eu possa voltar ao activo, trabalhar, sair. Creio que muitas pessoas doentes contam com o tempo também. Enquanto o momento certo não chega, meu corpo diz ao mundo que esta é a minha hora de descanso. Vou aproveitar então para olhar para dentro e dormir abraçado com o meu coração.

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